
Armando Perrone com os netos
Imagine uma pessoa boa e querida.
Agora multiplique isso por 10 e some uma carinha de simpático. Dê uma dose extra de valores e principios a esta pessoa e você estará imaginando meu avô.
Armando Perrone, este era o nome dele. O sujeito mais incrível que já conheci, disparado.
Faleceu há mais de 10 anos, no dia em que eu fui jurar a bandeira pelo exercito.
Ele era Palmeirense, e desde pequeno me enchia o saco por causa do Palestra. Aliás, ele nunca chamou o Palmeiras de Palmeiras. Era Palestra ou “Parmera”, porque o italianão era nato. Sócio do SPFC, chegou a ser dirigente do clube. Só ajudava na sede social do SPFC, e gostava do time, mesmo sendo “parmera!”.
Todo sábado eu ia comer pastel na casa dele. Tinha feira na rua do vô e era uma festa. Pastel, balinhas e refrigerante. Eu amava aqueles sábados de manha mais do que tudo na vida.
Um dia ele me pediu para não ir no seu enterro e velório. Não queria que eu o visse morto. E na semana seguinte, sem o menor indicio de problemas de saude, morreu dormindo. Eu não fui, óbvio!
Naquele domingo em que meu avô querido deixava este mundo, o SPFC venceu o Palmeiras, se não me engano por 2×1. Eu telefonei na casa dele diversas vezes para tirar sarro e ele não atendeu, pois estava longe… muito longe. Eu aguardava um sinal dele para poder brincar com a vitória na segunda a noite quando a minha tia passou no prédio para me buscar e avisar: “Ele não está bem”. Era mentira, ela só não teve coragem de me contar a verdade.
Quando cheguei na casa da minha mãe, meu irmão me disse: “Acabou… ele morreu”.
Nunca mais torci contra o Palmeiras, mesmo sendo um moleque torcedor doente do SPFC.
Era como “secar” a felicidade dele. Me tornei um sãopaulino com raiva zero do Palmeiras. Pelo contrário, passei até a simpatizar. No dia que o Palmeiras ganhou aquela Libertadores, enquanto meus amigos tricolores lamentavam, eu sorria discretamente por imaginar a alegria do velho com o título inédito. Não cheguei a comemorar, mas torci a favor sim.
E para me fazer torcer pro Palmeiras, enquanto garoto imaturo e simplesmente torcedor, precisava de um milagre. Ele conseguiu, mesmo longe daqui. Hoje, jornalista, cansado do meio do futebol e já sem 60% daquela paixão de torcedor, eu praticamente torço a favor dos 12 grandes sempre. Passei a ver futebol diferente e a torcer para que o futebol esteja sempre em alta, e isso requer os grandes vencendo.
Esses dias eu me lembrei. Quando o Palmeiras fez o último gol contra o Santos, eu imaginei a alegria do velho com a goleada. Hoje, almoçando com um amigo, me lembrei de muita coisa sobre o vô…
O quanto a gente é ignorante as vezes por odiar um time ou a torcida deste time. Coisa de moleque, mas que alguns acéfalos levam pra vida toda. O quando somos incoerentes em odiar algo que é parte da alegria das pessoas que mais amamos.
Eu custo a entender a lógica de um daqueles maloqueiros de estádio que cospem, atiram pedras e ameaçam alguém só por ver uma camisa de outra cor. Fico tentando imaginar aquele idiota malandrão chegando em casa minutos depois do jogo e dizendo “eu te amo” pra namoradinha que torce pro time rival.
Porque não arrebenta a cara dela também? É tudo “inimigo”, né?
Bando de imbecis.
Futebol é a melhor coisa do mundo. Sim, melhor que sexo!!! Nunca que um orgasmo pode ser comparado a uma Libertadores em casa nos pênaltis. Tem que ser hipócrita pra dizer isso… rsss
Vamos passar a semana discutindo e aguardando o possível confronto de domingo entre torcedores rivais no Morumbi. Pessoas normais, que se transformam por causa de uma camisa. Pessoas é modo de falar né… aquilo passa longe de ser gente.
Fico imaginando quantas destas pessoas pensariam 10 vezes antes de atirar uma bomba ao saber que um parente seu poderia estar do outro lado. Quantas vezes alguém já fez, sem saber, um amigo correr ou ter medo para ser machão ou “defender” as cores do seu time?
Não sei porque me lembrei disso hoje, mas lembrei.
Saudades do meu avô… O sujeito que me fez ver um rival apenas como um rival, mesmo sem me pedir isso.
Deve estar lá, longe, olhando e rindo a toa com os gols do Keirrison…
“Viva o Palestra!”, vôzão!

O seu Armando com diretores do SPFC

Já no clube, atuando pelo social
Abs,
RicaPerrone