
Cresci passando minhas férias na Praia Grande, litoral de São Paulo. A turma lá era daquelas que, aconteça o que for, nunca terei outra igual. Passavamos 1 mes juntos por ano e feriados, e nos divertiamos mais do que se estivessemos juntos o ano todo.
Entre amigos, namoricos e muita história, uma passou a ser interessante depois de alguns anos.
São 2 prédios: Pelicano e Albatroz. Todo ano existe um jogo entre eles e a rivalidade é boa, ou pelo menos era. A partida acontecia sempre nos primeiros dias de janeiro, onde todos estavam presentes. O prédio do Pelicano tinha um índice maior de vitórias por ter um juvenil do Palmeiras e o goleiro juvenil da Lusa na época.
Um dia, uma família nova começou a frequentar o prédio e os jovens da família se enturmaram conosco. Havia um baixinho habilidoso, que jogava no Pequeninos do Jóquei. Negro, com um cabelinho ralinho, pareciam granulados. O apelidei de “Brigadeiro”.
Eramos amigos, pois eramos são-paulinos doentes. Assistimos algumas Copa-SP de juniores juntos naquelas férias de verão. Vimos Jameli ganhar um título do Corinthians e me lembro de termos ido correndo até a praia com as camisas para contar pro resto da turma.
Entre guerras de bexigas, shows de pagode perto do prédio e partidas de futebol as 2h da manhã após a instalação dos refletores, Brigadeiro já era um dos “figuras” da turma. Entrou pro time do Albatroz (o meu) e fiz dupla de ataque com ele numa vitória muito comemorada. Brigadeiro acabou com o jogo atuando de ponta direita e driblando o time todo. Eu fiz meus gols, diga-se, todos com bolas que ele deixou sem goleiro pra mim.
Meu avô morreu e a minha família teve a infeliz idéia de vender aquele apartamento, que um dia comprarei de volta. Nunca mais vi a maioria deles, enquanto outros consegui algum contato em SP depois disso, assim como 2 ou 3 são amigos até hoje.
Um dia, já como jornalista, um garoto negro, alto e muito forte me deu um tapa no ombro no vestiário do Morumbi:
- Caraaaaaaaalho!!! Voce aqui?
- Tô nos juniores!!! Acredita?
E nos abraçamos, demos risadas e, novamente, perdi contato. Um dia, vendo o jogo pela TV, entra um tal de Julio Batista. Quando vi na TV meu telefone tocou. Eram amigos da praia ligando e dizendo:
- Cara, é o Brigadeiro!!!
Eu fiquei muito feliz, porque a família desse cara é qualquer coisa de sensacional, assim como ele era um grande cara quando garoto. Humilde, engraçado, gente boa e muito bom de bola. Brigadeiro cresceu e nunca mais a galera o viu. Só pela TV.
O curioso disso tudo é que o Jair Picerni tinha apartamento lá e vivia assistindo nossos jogos. Ele nunca reparou no Julio, talvez se reparasse levaria pro União de Araras, time que dirigia na época.
Outro dia ele foi ao CT e eu o encontrei. Fui até a grade enquanto ele estacionava seu carrão e chamei. Ele me deu a mão como se eu fosse um conhecido qualquer, mandou ligar pra gravarmos e entrou. Não foi mal educado, mas também não foi “o Brigadeiro”. Eu entendo, afinal, deve ter muita gente das antigas que se aproxima hoje com outra intenção. Mas, confesso, fiquei meio chateado. Queria ligar pra turma toda e contar dele, mandar um abraço dele pra todos, etc. A galera quando fala comigo sempre pergunta se, pela profissão, nunca mais vi.
É um cara que eu respeito e torço muito. É, de alguma forma, muito bom ver um amigo que cresceu jogando bola com você na praia chegar na seleção e conquistar tudo isso. E, acreditem, ele merece.
E o melhor de tudo: Eu fiz dupla de ataque com um jogador do Real Madrid!!!! rsss
abs,
RicaPerrone