
Ontem eu vi uma cena que deveria preocupar quem comanda o futebol no Brasil e, até, quem torce. Cena comum, ninguém mais se espanta, mas que é grave.
Após SPFC x Palmeiras, com Fluminense x Botafogo a começar, bola rolando pro Vasco, minutos antes do jogo do Corinthians, um garoto de aproximadamente 7 anos parado em frente a banca de jornal. Ele mexia no jornal, claramente lendo as paginas finais, onde cita futebol internacional. Vestia uma camisa do Chelsea, orgulhoso.
Esse garoto cresce se espelhando no Drogba, no Gerrard, com ódio do Cristiano Ronaldo, que é rival do time dele. Sim, ele tem um time no Brasil. Mas ele não escala esse time, ao contrário do que faz com qualquer time do outro lado do mundo, onde sequer a lingua ele conhece ainda.
Esse garotinho lida o videogame e grita quando um tal de Rooney pega a bola. E ele não sabe quem é o Pierre, nem o Conca, muito menos o André Santos. Ele não dribla o amiguinho na rua e grita: “Zico!!!”. Ele grita algum jogador que atua na Europa, que veste a camisa de um time de lá e que ele nunca verá no estádio. Futebol, pra ele, é na web e nas manhãs de domingo. As 16h tem a série B na cabeça dele, que são aqueles times quase colegiais da NBA que servem para revelar jogador para os profissionais, que são os europeus.
Corinthians x Palmeiras? Vasco x Botafogo? Não passam de clubes falidos que acabaram de sair de série B, com problemas de corrupção e diretoria. Aquilo não lhe atrai. O Manchester City sim.
O diferencial disso nunca foi o dinheiro. Eles sempre tiveram mais, nós menos. Mas o nosso era melhor, porque o futebol era a alegria do povo, não uma disputa entre tribos onde vencer é o que importa, discutir e ter razão é mais legal do que ir ao campo, e torcedor é sinonimo de pessoas vestidas de uma camisa que vão ao jogo para brigar e se auto-afirmar.
Os nossos técnicos, cobrados hoje como executivos de multinacionais que visam lucro e mais nada, viraram exatamente isso. Executivos que falam bonito, usam ternos, buscam vencer, vencer, vencer e vender 2 jogadores por ano. É negócio, puro! E eles viraram diretores de empresas olhando pra números, só.
Nós da mídia criamos isso na medida que paramos de exaltar a seleção de 82 e passamos a cobrar o título custe o que custar. Custou caro, veio, nos penaltis, e de lá pra ca o nosso futebol se transformou em resultado. Europeunizaram nossa maior paixão e, obviamente, ela se tornou nosso negócio. Não discutimos mais com alegria. A discussão é agressiva. Falar de futebol é agredir quem pensa diferente e entupir a conversa de “o meu ganhou, o seu não”.
É odiar o time rival acima de tudo. E junto com isso, se possível, agredir torcedores, história, tradição e etc. Para salvar a falta do que falar, inventaram a polemica fora de campo, que move 80% do noticiario hoje em dia. Até porque, o que rola dentro do campo não é mais interessante pra se falar.
A mídia inventou os jornalistas de um time só. Julgados por serem corintianos, vascainos, saopaulinos e não mais jornalistas. O torcedor, cego como sempre, cobra destes que sejam imparciais e depois cobram dos que torcem pelo seu que sejam parciais. Virou uma bola de neve cheia de incoerencia, com uma mídia que desistiu de fazer conteúdo simplesmente porque o torcedor não quer e, infelizmente, hoje em dia não tem nível pra receber tal informação. É um geração que viu o Romário no fim, um Renato no fim, um titulo mundial burocratico, uma era de campeões que jogam com regulamento e os craques todos la na Europa.
Não entendem o que os mais antigos exigem e sentem falta. Para eles, isso é o normal. E não é.
Já que é tudo 0×0, é tudo jogo tático, tudo resultado… vou escolher acompanhar o Europeu, é claro! Isso é a maior prova de que futebol não é resultado, por mais incoerente que seja.
Se fosse, a molecadinha não ia ficar olhando campeonato italiano. Ia ser tudo sãopaulina, porque quem anda ganhando é o SPFC. E não é verdade, porque as duas torcidas que mais crescem entre os pequenos são Flamengo e Corinthians, segundo pesquisa. Ou seja, não tem relação com vitórias. Tem com o encanto, o ídolo, o lance especial. Aquela grande conquista…
Se fosse assim, só resultado, não olhariam pro lugar onde tem os craques. Olhariam pro time dele, só. Mas não. Eles buscam o ídolo, não o resultado. E isso quebra qualquer argumento de que futebol é bola na rede. Não é, nunca foi, e só é pra quem vive disso. Pra torcida, cliente final do produto, não é.
O garotinho vai crescer. Vai torcer pro Chelsea e cada dia mais, com um mundo globalizado e cheio de facilidades, se aproximar dos europeus. Um dia ele terá um amigo do Manchester e vai discutir no boteco com ele. Será o fim. O Esporte Espetacular terá que falar sobre Rooney x Owen, porque não terá mais nada aqui pra comparar.
Vai mentir pro seu filho com esse mundo de informação fácil? Não dá mais. Ele conhecerá o craque lá da Europa, não vai adiantar você dizer pra ele que o Hugo joga muito, que o Souza é bom, que o Alex Mineiro é craque. Ele sabe que não, porque passa na TV a cabo dele todo dia o contrário.
Quantos já são os convocados que nós, brasileiros, não conhecemos? E quantos serão amanhã?
Futebol é resultado?
O resultado é esse: O garotinho de 7 anos virou torcedor do Chelsea. E iguais a ele já tem milhares. Porque futebol é resultado.
Né?
abs,
RicaPerrone