“Fernandão”! É assim que chamo meu pai e é assim que meus amigos passaram a chamar.  Hoje ele faz aniversário, hoje ele queria estar no Morumbi comigo vendo a final da Libertadores, mas hoje ele vai jantar com a esposa e eu vou trabalhar vendo o Flu decidir o campeonato. Ele vai jantar porque merece, e eu vou trabalhar porque ele é, como diz o título, “um puta cara”.

Um cara que eu levei 20 anos pra perceber o quanto me influcienciou. Vocês leitores do blog, notam isso lendo 2 ou 3 textos meus.  Mas, se hoje eu vou “trabalhar”  vendo o Fluzão jogar, devo a ele.

Não é a coisa mais normal do mundo um sujeito ter um pai fanático pelo São Paulo, viver dentro do clube, ir a todos os jogos no Morumbi, e quanto seu filho nasce ensinar o outro lado. A tendencia era me tornar um doente tricolor, e o fez. O que não era tendencia era me ensinar que tudo que eu via no meu time, os outros viam em outros clubes, e que isso merecia o mesmo respeito.

Meu pai foi o cara que me levou ao Maracanã vazio, em janeiro de 87 acho, e que ali dentro do gramado me contou a historia dos 4 times do Rio de Janeiro sem menosprezar nenhum deles. Me revelou, sem o menor pudor de torcedor, que o Fla-Flu era um clássico mais importante e famoso do que São Paulo x qualquer um.  Me contou da carreira do Zico, e me revelou ter ido ao Maracanã em plena lua de mel.

Este mesmo sujeito me levou ao Beira-Rio e ao Olímpico, e fez um garotinho de 11 anos conseguir gostar dos dois times de Porto Alegre sem nunca ter visto um jogo entre eles ao vivo. Me trouxe flamulas do Gremio quando foi para lá trabalhar, e até hoje me lembro dele me contando que quando o SPFC perdeu o título pro Grêmio no Morumbi, perdeu para um gigante do futebol brasileiro, e não “pra ele mesmo”, como aturamos até hoje.

Uma vez, em Minas, eu quis comprar uma camisa do Cruzeiro. Ele me ensinou toda a história do Galo e seus ídolos. E ele fazia isso sem perceber, não era programado.  Voltei de Minas com um boné de cada, porque por algum motivo meu pai nunca me deixou ignorar um grande clube do país.  Eu falava do Vasco, ele me ensinava tudo do Roberto Dinamite e ainda contava do Botafogo, talvez numa tentativa de que eu nunca fosse um cego apaixonado por um clube só. Na verdade ele notava que o meu fanatismo pelo São Paulo já me fazia mal, e talvez tentasse apenas me justificar derrotas com essas histórias.

Meu pai me segurou na cativa do Morumbi em 89, minutos após o gol do Sorato, e mesmo sofrendo pela derrota, me disse: “Filho, perder faz parte. O Vasco foi melhor e mereceu ganhar”.  Cara, eu não me conformo com isso! Como você raciocina após um gol do seu rival? Pelo amor de Deus, me ensina a fazer isso! E ele ensinou, mas sem ter que dar aula.

Na final da Libertadores de 93, eu tava de castigo. Eu chorei o dia inteiro em casa porque não pude comprar ingressos e ir ao jogo. Seria a primeira decisão do SPFC que eu não estaria no Morumbi desde que nasci. Ele estava puto comigo, mas … As 18h30 ele entrou em casa sério. Me olhou e disse, com cara de bravo: “Se arruma, tamo atrasado”.
- Pra que?
- Pra ir pro jogo…
- Mas… mas… não tem ingresso.
- Eu fui na Federação Paulista hoje a tarde e consegui comprar 2. Você não vai ficar fora da decisão, por mais que mereça.

Cara… eu chorei de alegria naquele dia, mas chorei igual uma criança quando eu vi aquele papelzinho na mão dele. Ganhamos, 5×0… E eu voltei pro castigo feliz da vida. O que eu quero dizer com isso é que meu pai teve todos os motivos do mundo pra me castigar e me tirar coisas. Ele sempre me tirou video-game, praia, clube, etc. Mas, nunca, em momento algum, ele me tirou o futebol. Ele abria o castigo pra que o futebol entrasse no meio. Eu não podia sair de casa as vezes, mas no jogo domingo ele me levava. Ele sabia que eu ia pro jogo quando dizia ir fazer trabalho na escola, mas ele nunca impediu.

Meu pai me ensinou F-1. Me levou a Interlagos ver o Senna, me levou na Sapucaí, me respeitou por eu ter uma escola que não era a dele. Ele é Mangueira, e nunca me obrigou a isso.  Ele me deu direito de escolha em tudo, menos no time. Com menos de 1 ano eu vestia a camisa do SPFC no Morumbi. Com horas de vida, eu tinha o símbolo do SPFC no meu quarto.

Quando eu comecei a gostar do Flamengo por causa do Zico, sabe o que ele fez? Me levou ao Maracanã. Quando eu fiz aniversário e lancei um site de Formula 1, ele me deu um capacete do Senna, que fica na sala da minha casa até hoje. Reclamava pra cacete, sempre cobrou muito. Mas era o jeito dele de empurrar pra frente. Hoje não. Hoje ele mora lá, eu aqui, e somos amigos.  Saimos pra almoçar, vamos ao Morumbi ver o SPFC, discutimos futebol em todos os telefonemas que fazemos… enfim, é um pai que não posso reclamar.

Meu pai é tão educado que quando ele foi me contar do Ademir da Guia, jogador que ele nunca gostou, ele repetiu 200 vezes no discurso: “Eu não gosto dele, mas filho… foi um craque!”.  Ou seja, não se influencie por mim!!! Não menospreze o Ademir só porque EU não gostava. Seja justo, ouça mais gente. 

Agora o véio tá chegando nos 60, viaja mais do que eu, se diverte mais do que eu, trabalha tanto quanto, ganha mais do que eu… e eu continuo aprendendo com ele.

Hoje a noite, onde eu tinha todos os motivos do mundo pra torcer pela LDU, vou torcer pro Fluminense porque ele me ensinou assim. Mais do que isso: Vou trabalhar vendo o jogo porque se hoje eu vivo disso, foi por ele ter me mostrado o futebol e nào apenas um clube. Cerebral, chato, engraçado, divertido, são-paulino e boa gente. Assim é o meu pai.

Aqueles caras que usam terno o dia todo, vive em reuniões com empresas grandes. Mas, mesmo de terno, quando o SPFC faz um gol no Morumbi a gravata quase vira bandeira.  Pula igual moleque, e minha maior alegria é vê-lo no estádio comigo. Eu adoraria que o pai dele, meu avô, tivesse tido essa oportunidade. Mas, tenho certeza que o dia mais feliz da vida do meu pai vai ser quando eu, ele e meu filho entrarmos juntos no Morumbi pela primeira vez.

Aí, neste dia, eu ficarei quietinho olhando ele dizer pro neto: “Olha, o Atlético MG é muito forte. Eles tiveram um jogador chamado Reinaldo. Aí, uma vez………… “

Parabéns, Fernandão! Você é o cara!

abs,
RicaPerrone